sábado, 20 de junio de 2015

Falso Califato: perfeito ativo estratégico dos EUA

O ocidente “civilizado” chora abundantes lágrimas de crocodilo, quando a pérola do deserto da Antiga Rota da Seda, Palmyra, cai sob as garras do ISIS/ISIL/Daesh.

Contudo, nem o presidente Barack Obama dos EUA nem qualquer de suas 22 nações-vassalas pesadamente armadas que formam teoricamente a coalizão de vontades dele mandou para lá um drone equipado com míssil Hellfire, que fosse, contra os bandidos vestidos de negro do falso Califato.

Pode-se argumentar que o ocidente “civilizado” prefere negociar com um Califato cheio de wahhabistas medievais intolerantes, a negociar com um “ditador árabe” secular que “se recusa a prostrar-se de joelhos ante o altar do neoliberalismo ocidental”.

Paralelamente, já se disse que os que armaram os degoladores da Frente Al-Nusra, também conhecida como al-Qaeda na Síria, ou ISIS/ISIL/Daesh são predominantemente sauditas – os maiores importadores de armas do planeta – que compram armas principalmente dos EUA, mas também da França e da Grã-Bretanha.

E agora, documento de agosto de 2012, da Agência de Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA [Defense Intelligence Agency (DIA)] que circulou por todas as mãos, do CENTCOM à CIA e ao FBI, obtido por ordem judicial pela empresa Judicial Watch, finalmente confirma o que passa por ‘estratégia’ de Washington no Levante e na Península Árabe. 

E, assim como a proto-Al-Qaeda original fundada pela CIA, estabelecida nos anos 1980s em Peshawar, o ISIS/ISIL/Daesh, também conhecida como al-Qaeda 2.0, serve ao mesmo objetivo geopolítico.

O resumo é que o ocidente “civilizado”, ombro a ombro com vassalos tipo Turquia e petromonarquias do Golfo, “deram apoio” ao braço da al-Qaeda na Síria para desestabilizar Damasco – apesar de o Pentágono estar prevendo o resultado sinistro que disso adviria, como a emergência do ISIS/ISIL/Daesh (ver também matéria detalhada de Brad Hoff, em 22/5/2015, “EUA – Agência de Inteligência da Defesa, 2012: Ocidente facilitará ascensão do Estado Islâmico ‘para isolar regime sírio’”, Levant Report [traduzido em redecastorphoto (NTs)]).

Pelo raciocínio do Pentágono, aí estaria um ativo estratégico de valor incalculável, a ser usado para “isolar o regime sírio”. 


É irrelevante que o relatório da Inteligência da Defesa dos EUA não diga, com todas as letras, que o governo dos EUA inventou o ISIS/ISIL/Daesh, ou que favorece a al-Nusra na Síria ou o falso Califato no Iraque. O ponto chave é que o documento mostra que governo dos EUA fez nada, absolutamente nada, para impedir que a Casa de Saud, os vassalos no Conselho de Cooperação do Golfo e a Turquia “apoiassem” a “oposição” síria – naquele ardente desejo desses todos de facilitar a emergência de um estado salafista à parte no leste da Síria e atravessando a fronteira, incluindo território iraquiano.

Agora, já não há observador bem informado que não saiba que a “guerra ao terô” iniciado pelo governo Cheney é completa fraude. Assim sendo, não é surpresa que a destruição planejada do “Siriaque” [orig. “Syraq”] atualmente em andamento ofereça ao complexo industrial militar dos EUA o pretexto perfeito para super armar, com bilhões de dólares em armas, a Casa de Saud, outros vassalos reunidos no CCG, Israel e Iraque.

Essa confluência de interesses – geopolíticos, para o Pentágono; comerciais, para o complexo industrial militar – completa o cenário da Casa de Saud virtualmente ditar a política exterior do governo autodefinido de Obama como “Não faça merda coisa estúpida” no Levante e na Península Árabe.

No início de junho haverá em Paris uma reunião de todos os 22 estados membros da coalizão de Obama. Até lá, o Pentágono terá de ter algum plano de o que fazer do seu ISIS/ISIL/Daesh; ir ao tudo ou nada e tentar aniquilá-lo (muito improvável), ou empurrar os esquadrões de paus-mandados na direção do Cáucaso (nada improvável). O mais provável, em todos os casos, é que a coisa continue como está. 

E a Rússia sabe de tudo 

O coronel-general Igor Sergun, chefe do Diretorado Superior de Inteligência [orig. Main Intelligence Directorate (ru. GRU)] do Comando Geral das Forças Armadas da Rússia praticamente jamais fala em público. Por isso, quando ele fala, as placas geopolíticas tectônicas se agitam.

A análise de Sergun encaixa-se perfeitamente ao relatório da AID. Já há anos a inteligência militar russa concluiu – e agora está divulgando publicamente – que “o terrorismo islâmico” ou, de fato, a “guerra ao terô” toda ela, é ferramenta ocidental usada para esmagar nações soberanas que se atrevam a fazer oposição ao hegemon.

E como todos nós sabemos, é claro que é muito mais fácil subverter e/ou esmagar Iraque, Líbia ou Síria, que Rússia ou China. Ou, por falar disso, o Irã.

Entrementes, o Império do Caos tem de se empenhar muito para conseguir lidar com – ou exibir cara de quem estaria conseguindo lidar – com o revide gerado por sua posição de Dividir e Governar. No Iraque, a queda de Ramadi deu ao ISIS/ISIL/Daesh um grande impulso de Relações Públicas, em termos de alcance estratégico, para recrutar novos soldados e para levantar cada vez mais dinheiro. Fizeram a equipe-aquela, de “Não façam merda coisa estúpida”, de idiotas.

E os EUA não foram sequer espectadores secundários da queda. Ramadi caiu porque o governo de Bagdá recusou-se a dar armas às tribos sunitas da província de Anbar. O falso Califato atacou a cidade com uma frota de 30 caminhões carregados de explosivos e com suicidas-bomba ao volante. As tribos que defendiam a cidade tiveram de desaparecer, porque sabiam que seriam massacrados pelos bandidos do Califato.

E o que fazia o Pentágono naquele momento? Nada – contradizendo a errada acusação do El Supremo do Pentágono Ash Carter, para quem as forças iraquianas não tinham “vontade de lutar”. O Pentágono também nada fez em Tikrit, quando os norte-americanos recusaram-se a lutar contra o falso Califato ao lado de milícias xiitas comandadas por oficiais vindos do Irã e que se reportavam diretamente ao famosíssimo super comandante da Força al-Quds, brigadeiro-general Qassem Suleimani.

É Irã contra os degoladores 

Agora a queda de Ramadi deixa bem claro que a verdadeira potência que está dando combate ao ISIS/ISIL/Daesh no Iraque é o Irã, não os EUA. Milícias xiitas já estão sendo incorporadas às forças de segurança do Iraque.

Ezzat al-Douri, ex-n.2 de Saddam Hussein – que os EUA não prenderam até hoje – tem distribuído mensagens sobre a urgente grande necessidade de ajuda armada que venha dos suspeitos de sempre, Arábia Saudita, ainda que os sauditas tenham tentado armar as tribos em Anbar, através da Jordânia. Adivinhem quem disse “não”? Washington. Segundo as tortuosas e vacilantes regras do governo Obama, a Jordânia só poderia fazer o jogo dos sauditas se viesse uma autorização de Bagdá, que nunca veio.

Essa confusão quase impenetrável é só um exemplo do jogo duplo que o Império do Caos joga nessa “guerra ao terô” – que se resume à elaborada farsa que é a ‘luta’ contra o ISIS/ISIL/Daesh em todo o “Siriaque”.

Aconteça o que acontecer em Washington no futuro próximo, sob Hillary “Viemos, vimos, ele morreu” Clinton ou sob Jeb “Meu irmão acertou na invasão” Bush, não se vê nem sinal de que o governo dos EUA pare algum dia de usar o “terrorismo islamista” como ativo estratégico.



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